Tenho estudado os transtornos associados às Altas Habilidades e Superdotação e vou relatar abaixo três mitos e o problema da romantização da condição.
1) Hiperfoco é um foco excelente.
2) Altas habilidades é hábil.
3) Superdotação é uma capacidade extraordinária.A autoestima dos superdotados não costuma ser grande coisa, por isso não quero aqui abalar ninguém, só pontuar algumas idéias equivocadas do senso comum. AHSD trás sérios problemas, se sua vida está em ordem talvez você não seja AHSD.
O hiperfoco é um bom foco? Mais ou menos. O hiperfoco tem um foco limitado em um aspecto do conhecimento, é um hiperinteresse, hiperfoco não quer dizer que a pessoa tem uma grande capacidade de foco geral. Exemplo: uma vez criei abelhas, foi um hiperfoco, cheguei a envazar mel e vender. Adoro mel e abelhas. Mas eu não tinha um foco global na atividade, não tinha planejamento nenhum, não tinha estratégia de negócio, nem aprimorei os processos de envasamento, eu só gostava de lidar com as abelhas e comer mel. Vender mel era um efeito colateral. Resultado: atividade encerrada. Quantas atividades você teve hiperfoco e encerrou? Seu foco era fantástico mesmo?
Altas habilidades é hábil? Da mesma forma que o hiperfoco, altas habilidades tem habilidades específicas, por exemplo, habilidade com a linguagem, com a criatividade, com a interpretação, com a análise, com atividades manuais, mas não quer dizer que a pessoa é habilidosa em tudo o que ela faz. Ela pode ser muito pouco habilidosa nos relacionamentos, ao ponto de causar prejuízos na carreira, pode ser pouco habilidosa em gestão financeira, ou planejamento, pouco habilidosa no trato interpessoal, na diplomacia, na negociação, nos cuidados com o corpo, na organização e até no trabalho.
O Superdotado não é uma pessoa extraordinária, como se fosse um super-herói da Marvel. Inteligência não é sinônimo de êxito, não é sinônimo de altruísta, ou de justo, correto e educado, a capacidade pode ser extraordinária em um aspecto e fraca em outros. Exemplo, o fato de uma criança tocar piano desde muito jovem não quer dizer que ela vá ter um futuro fantástico pela frente. A superdotação pode trazer alta performance em alguns aspectos, em outros não.
Em resumo, a romantização da condição oculta dificuldades sérias, gera uma ansiedade onde agora todas as pessoas querem ser AHSD, a romantização banaliza o sofrimento e as virtudes da condição. Ninguém deveria querer ser AHSD, as pessoas tem que tratar suas dificuldades, buscar autoconhecimento e observarem suas fragilidades com objetividade. Potencialidades e motivação são orientações importantes da comunidade, não quer dizer que devemos cultivar ilusões ou noções do senso comum. A superação, pelo menos parcial, das limitações do AHSD é importante levar a sério. Existe uma diferença entre morar no Tatuapé e morar em Nova Tatuapé, o adjetivo Nova não quer dizer que o lugar é melhor, em geral é bem pior. Da mesma forma os adjetivos Altas e Super precisam ser entendidos com cautela.
Um abraço, Ricardo Ramalho
PS: artigo postado na comunidade AHSD (Da Vinci)
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